Al Berto


homens cegos procuram a visão do amor
onde os dias ergueram esta parede
intransponível

caminham vergados no zumbido dos ventos com os braços erguidos - cantam

a linha do horizonte é uma lâmina
corta os cabelos dos meteoros - corta
as faces dos homens que espreitam para o palco
nocturno das invisíveis cidades

escorre uma linfa prateada para o coração dos cegos
e o sono atormenta-os com os seus sonhos vazios

adormecem sempre
antes que a cinza dos olhos arda
e se disperse

no fundo do muito longe ouve-se
um lamento escuro
quando a alba se levanta de novo no horto
dos incêndios

prosseguem caminho
com a voz atada por uma corda de lírios
os cegos
são o corpo de uma fogo lento - uma sarça
que se acende subitamente por dentro


a luminosidade é uma placa de zinco suspensa
do céu de deserto

em redor
a imensidão das areias vibra contra o caos
de pedra e de eufórbios que se multiplicam
a perder de vista

o bafo inquieto dos cavalos acende
a pólvora das festas inesperadas

uma coruja morre
no cimo açucarado da tamareira

caminhas
sitiada pelo canto agudo do muezzin
chamado à oração

mektoub
sítios onde a vida cessou e tudo está escrito
há séculos - onde o coração dos homens
é uma rosa nómada e calcária

no limite da escassa água e desta terra seca
mal abençoada - caminhas
na plana noite das ardósias
nas jeiras de súplicas e recolhimento onde
talvez se esconda
o contorno quase terno do rosto de deus

Al Berto

Michael Moorcock


ELRIC

Chega a Portugal uma das obras mais emblemáticas da carreira do escritor britânico Michael Moorcock: "Elric", o príncipe albino da ilha de Melniboné. Apenas uma das encarnações da saga do Campeão Eterno, Elric tornou-se um dos heróis mais famosos da fantasia épica. Decadência, paixão e aventura, são algumas das emoções que preenchem as páginas de "Elric, Príncipe de Dragões". Michael Moorcock criou aqui um anti-herói que desafia as convenções generalizadas sobre o Bem e o Mal.
Tendo como missão manter o equilíbrio entre Ordem e Caos, Elric tem provavelmente na sua própria espada o seu maior némesis. Um livro a não perder

Betty Branco Martins

Almada Negreiros - Diego Rivera



Cultura e Civilização

Uma mesa cheia de feijões.
O gesto de os juntar num montão único. E o gesto de os separar, um por um, do dito montão.
O primeiro gesto é bem mais simples e pede menos tempo que o segundo.
Se em vez da mesa fosse um território, em lugar de feijões estariam pessoas. Juntar todas as pessoas num montão único é trabalho menos complicado do que o de personalizar cada uma delas.
O primeiro gesto, o de reunir, aunar, tornar uno, todas as pessoas de um mesmo território é o processo da CIVILIZAÇÃO.
O segundo gesto, o de personalizar cada ser que pertence a uma civilização é o processo da CULTURA.
É mais difícil a passagem da civilização para a cultura do que a formação de civilização.
A civilização é um fenómeno colectivo.
A cultura é um fenómeno individual.
Não há cultura sem civilização, nem civilização que perdure sem cultura.

Almada Negreiros - in "Ensaios"

Vergílio Ferreira ao espelho de André Malraux




.________nos anos 40 - André Malraux traçou um perfil de T.E. Lawrence - que ficou inédito até há dois anos_____«Le démon de l'absolu»_____. nesse texto - falando do famoso aventureiro - Malraux reflectia realmente sobre si próprio. em 1963 - Vergílio Ferreira escrevia_____«André Malraux (interrogação ao destino)» como se se visse - de certo medo - ao espelho. censurado - esquecido______este texto fundamental foi agora reeditado - obrigando-nos a reler estes dois autores do nosso século



___________«Malraux é póstumo a si mesmo. uma esperança secreta - todavia - nos não morre de que ele ressuscite. mas a sua obra realizada - a válida - a única____essa é uma das mais extraordinárias que o nosso século produziu. daqui a cem - duzentos anos - o juízo sobre ela ignorará o que ela não é - o que ela não terá sido. mas então - se tal obra estiver certa - como disso certo estou - o erro do nosso juízo será um erro para esse juízo apenas - ou antes_____para o modo como o efectivámos e não em referência ao termos valorizado o que valorizámos não para aquilo que não tivemos aqui em conta - que mal tivemos aqui em conta - porque isso não devíamos - e isto pela simples razão - já um dia o afirmei - de que a terra seria sempre redonda_____ainda que fosse um criminoso a declará-lo__________...

.com esta afirmação categórica - Vergílio Ferreira conclui o seu espantoso ensaio sobre um dos mais controversos escritores do nosso tempo - em «Interrogação ao destino - Malraux» (título alterado por desejo do próprio - para futura reedição - como esta da Bertrand). estávamos em 1963 (a primeira edição é da Presença - na colecção Biografia de Bolso) e_____como realça Augusto Joaquim no posfácio desta nova edição - Vergílio Ferreira estava então no zénite da sua trajectória artística e intelectual. havia já escrito - O Caminho fica Longe (1943) - Onde tudo foi morrendo (1944) - Vagão J (1946) - Mudança (1949) - A Face Sangrenta - Manhã Submersa (1953) - Aparição (1959) - Cântico Final (1960) e Estrela Polar (1962) - romances - e também Sobre o humorismo de Eça de Queirós (1943) - Do Mundo Original (1957) - Carta ao Futuro (1958) - ensaios - sendo ainda 1963 o ano em que lança Apelo da Noite e Da fenomenologia a Sartre

.______este novo ensaio - aliás enviado a Malraux - que nunca respondeu (mágoa que Vergílio Ferreira carregou até ao fim dos seus dias)_____era uma «arma» literária que disparava simultaneamente em várias direcções_____por um lado - fazia o grande elogio de um criador único no seu e no nosso tempo - consagrando a sua obra como autêntica charneira na história da literatura deste século - como se houvesse um «antes» e um «depois» de Malraux______por outro lado - lia essa mesma obra - de romance e ensaio - literário e artístico - como ninguém o fizera até então (e parece-me que não voltou a ser feito_______... ) porque a leitura era feita «por dentro»______por quem se lia e revia nesses textos - há evidentes pontos de contacto - flagrantes semelhanças entre as obras dos dois escritores - sem nunca se terem encontrado - mas pertenciam ambos à mesma linhagem espiritual - se deixarmos de lado o carácter aventureiro______guerreiro - de Malraux. e é assim que Vergílio Ferreira - ao falar de Malraux_____escreve e pensa quase sempre sobre ele mesmo - por interposta pessoa (como Malraux tinha feito - mas Vergílio Ferreira não o chegou a ler - em «Le démon de l'absolu»_____ensaio biográfico sobre o famoso - «Lawrence da Arábia»_____somente publicado em 1996 - na colecção de obras completas editada pela Gallimard)

.deste modo_____«interrogação ao destino - Malraux»_____é. até certo ponto - um jogo de espelhos - e daí o extraordinário interesse desta obra____conhecendo melhor Malraux - interpretado por Vergílio Ferreira - ficamos a saber mais sobre este último___em páginas fulgurantes


.______mas há ainda um outro aspecto a salientar nas intenções deste ensaio_____o seu autor responde aqui às críticas e aos ataques que vinha sofrendo - desferidos de várias frentes - à esquerda e à direita (e ao centro)______por quem sempre se mostrou militantemente cego perante a excepcional grandeza (digo eu) da sua obra - pela qualidade da escrita (surpreendente até ao fim) e pelas questões cruciais que ela levantava

.será um exagero afirmar que Vergílio Ferreira foi um dos poucos escritores universais que a nossa literatura produziu________? não me parece. como também não erro_____certamente - ao sublinhar que os seus livros - se tivessem sido traduzidos em França - a tempo e horas - e não tão tardiamente como foram (e apenas alguns)______teriam revelado à Europa as ideias de um autor que procurou sempre escrever «cartas ao futuro»_____acabando por ter razão antes de tempo - como ele dizia de Malraux.

_______claro que hoje - diante deste ensaio sobre o autor de «A condição humana» (um dos cem livros deste século - segundo a escolha feita para o festival dos Cem Dias - da Expo) - podemo-nos perguntar__________.quem é que lê ainda Malraux_______? quem guarda dele outra imagem que não seja a do admirador incondicional de De Gaulle - arrastado também pelo turbilhão do Maio de 68 (veremos se no próximo mês de Maio, nas comemorações dos 30 anos da «revolução» - ele escapará a essa fúria demolidora) - por simples fidelidade ao que De Gaulle tinha representado como voz da liberdade____?____ sendo a memória dos povos (e dos intelectuais) tão curta como se sabe - poucos recordarão ainda o Malraux combatente da guerra civil de Espanha - na aviação republicana - o Malraux resistente - no «maquis»______contra os nazis - o Malraux que - quase no final da vida_____ainda foi capaz de se oferecer para combater de novo - pela liberdade do povo do Bangla Desh - e______uma vez mais - foi uma voz isolada - profundamente solitária_____como é próprio das grandes causas. mas livre e coerente com os seus princípios muito pessoais



._____neste extremo da Europa - provavelmente______só Vergílio Ferreira o poderia entender________///


  • ._______daqui a cem anos______talvez - se ainda houver esta mania de ler e de escrever para nos sentirmos vivos - André Malraux e Vergílio Ferreira farão parte das nossas referências_______para não nos perdermos.



    Betty Branco Martins


    Susanna Tamaro



    TOBIAS E O ANJO

    Fugir de casa era a única maneira de Martina mostrar seu descontentamento com a separação dos pais, agora que já não tinha a companhia do avô para a consolar. Perdida nas ruas tristes dos subúrbios, a menina encontra Tobias, seu anjo da guarda, que lhe fala da tristeza que os pais sentem pela sua partida. E Martina resolve voltar, percebendo que, afinal, sua fuga não foi de todo inútil: o comportamento antes desatento e por vezes agressivo dos pais se modifica.


    Tobias e o anjo é mais um livro da consagrada escritora italiana Susanna Tamaro, sua segunda incursão no universos infanto-juvenil. Autora do bestseller mundial Vá aonde seu coração mandar, ganhador do prémio Donna Città di Roma, e uma das mais reputadas escritoras italianas de nossos dias, reafirma em Tobias e o anjo sua denúncia à solidão, à incompreensão e à falta de amor dos dias atuais, temas recorrentes em suas outras obras.

    Nesta história simples sobre reconciliação, convida os jovens a revelar sua sensibilidade – "Vocês não sabem, mas têm um coração", disse uma vez – a deixar de lado o orgulho tão forte nessa época da vida e a dar ouvidos à dor que educa.

    Tudo isso fugindo do tom doutoral de conselheira e muito mais reportando-se à sua própria experiência de vida. Também ela foi uma jovem triste, uma adolescente rebelde, criada por uma avó sábia e silenciosa. Daí talvez as figuras de avós ou personagens mais velhos serem uma constante em seus livros, sempre como figuras positivas reiterando a beleza da Vida e do Amor.

    Betty Branco Martins

    Rosa Lobato Faria



    Os Linhos da Avó

    21 histórias que nos falam quase sempre de mulheres…

    Tal como a avó da história que dá título ao presente livro, que arrecadava os seus linhos em armários esquecidos e os perfumava com maçãs, também
    Rosa Lobato de Faria pegou em textos guardados na gaveta, sacudiu-lhes algum perfume de nostalgia e decidiu juntá-los em volume, par a gáudio dos seus numerosos e fiéis leitores. São vinte e uma histórias, que nos falam quase sempre de mulheres: dos seus amores, das suas traições, da sua perseverança, do seu combate por uma dignidade negada e reprimida. Mas que nos falam também dos homens que estão a seu lado, da vida dos casais, da sexualidade, da paixão e do ciúme, de Deus e da morte.

    Prosseguindo uma trajectória ficcional iniciada com
    O Pranto de Lúcifer (1995) e continuada até ao presente com uma regularidade e uma qualidade indiscutíveis, Rosa Lobato de Faria confirma em Os Linhos da Avó a sua vocação de contadora de histórias, arrancadas todas elas à realidade mais profunda da vida.


    Betty Branco Martins

    Oriana Fallaci



    INCHALLADH

    «As personagens deste romance são imaginárias. Imaginárias as suas histórias, imaginária a intriga. Os acontecimentos em que se apoia são reais. Real a paisagem, real a guerra em cujo quadro a narrativa se desenvolve.
    A autora dedica este seu trabalho aos quatrocentos soldados americanos e franceses trucidados no massacre de Beirute pela seita dos Filhos de Deus. Dedica-o aos homens, às mulheres, aos velhos, às crianças mortas nos outros massacres na mesma cidade e em todos os massacres do eterno massacre que dá pelo nome de guerra.
    Este romance quer ser um acto de amor por eles e pela Vida.»


    Betty Branco Martins

    José Alexandre Ramos



    Lágrima retida no teu rosto

    a tua espiral de cabelo e beijos suavizados
    na pluma do orvalho refrescando a juventude dos lírios
    toco-lhe com um dedo e a luz colorida do teu olhar
    sorri como mil lábios.
    a palma das minhas mãos feitas da areia mais fina
    e a sede do teu hálito saciado de mar.
    mostras-me a curva do teu corpo onde nidificam as garças
    e insinuas a origem dos paraísos sonhados no teu umbigo.
    abro os meus braços e abre-se a abóbada celeste sobre o teu olhar encantado.
    teus lábios mexem-se num sussurro e compreendo que as palavras proferidas
    numa cadência de rouxinol
    eternizam o poema de amor jamais escrito ou dito.
    e daqui, mulher, que podem as musas e os deuses agora esperar
    se esta gota que do vidro do cristal dos diamantes africanos é feita a sua luz
    esgota a possibilidade de qualquer olimpo, de qualquer ilha dos amores pintada
    mais forte que todos os punhais e todo o fel das tragédias dos amantes
    aberta em mar que se agiganta no derradeiro dilúvio?

    - meu amor, é apenas a lágrima retida no teu rosto.

    José Alexandre Ramos

    ______________________///

    ______sigo as pegadas da sua escrita pois nela muitas vezes me inspiro. foi meu professor - crítico e amigo - pela forma delicada que me chamava a atenção - das minhas falhas - dos meu erros
    .obrigada - José Alexandre Ramos



    ._______convido a visitar a sua página


  • Betty Branco Martins

    CLAUDE MONET



    _______os homens são como as moedas - devemos tomá-los pelo seu valor_________seja qual for o seu cunho

    [Drummond]

    ...

    .______não quero ser um génio__________já tenho problemas suficientes ao tentar ser um homem

    [Camus]


    Betty Branco Martins

    Paul Gauguin



    GAUGUIN E O SIMBOLISMO

    .________a corrente simbolista foi uma linguagem artística importante na arte europeia - de 1880 1890. existiu como uma reacção contra o Naturismo na literatura - na música e na pintura
    .evocativa - mas também descritiva - capturou os aspectos espirituais mais elevados e mais profundos - relacionando-se com o imaginário e com o mundo interior. a cor - a linha e a forma deviam exercer funções mais expressivas do que descritivas
    ._____daí a rejeição do Impressionismo e do Neo-Impressionismo
    Paul Gauguin foi um dos mais importantes simbolistas
    .usufruiu de uma vida social confortável - acabando por se tornar um artista reconhecido pelo seu talento e pela sua solidão
    .foi ceramista e escultor - mas sobretudo pintor. em 1874 conheceu o grupo impressionista - tornando-se seu coleccionador e companheiro. este jovem agente da bolsa e ex-marinheiro começou a pintar a partir da influência do grande mestre Pissarro. pintando quadros com cores lisas e puras de perfis contornados - anti-realistas - este conseguiu criar um estilo simplificado - influenciando definitivamente Gauguin____que rapidamente rompe com os impressionistas - criticando-lhe o entendimento da cor e a interpretação da natureza
    .durante uma curta visita a Paris - faz algumas vendas de quadros e estabelece novas amizades que vão ter um papel decisivo na sua vida - como Theo Van Gogh - que será o primeiro comprador que se interessa por Gauguin e acredita no seu génio
    "parto para estar tranquilo - para livrar-me da influência da civilização - quero fazer uma arte simples"______escrevia assim Gauguin acerca da sua ida para o Taiti e explicava___
    "deve sacrificar-se tudo à cor pura. a cor - como tal______"
    .é enigmática nas sensações que em nós provoca. na sua estadia nas ilhas exóticas - aprofunda cada vez mais os simbolismos e as cores intensas. o seu objectivo era alcançar sinfonias e harmonias na pintura como se fosse música___________

    © Betty Branco Martins